Cambará do Sul, RS, colagem de fotografias, 150 x 56 cm, 2016

Tupi Files

Tupi Files

Entre a pintura e a fotografia existe um “lugar”, marcado por temporalidades complexas, situado entre a imagem construída de forma artesanal -a pintura- e a imagem construída de forma maquinal, a fotografia. Produzi uma falsa documentação do desaparecimento da água no início do século XXI, e a partir desta percepção, realizei uma série de operações, da fotografia à manipulação digital e à reprodutibilidade, subvertendo a função do fotográfico, seja como registro, ou como representação do “real”. O resultado final será uma série de trinta imagens, reunidas em quatro urnas e uma videoinstalação que estimulam a reflexão sobre a fragilidade de nosso planeta, discutem a questão da representação da paisagem e de nossa herança cultural e as imagens da história da Arte Brasileira, em especial dos pintores viajantes.

Lorem ipsum dolor sit amet

1
Mamanguá 1, SP
fotografia, impressão
em jato de tinta semipigmentada
sobre papel 100% algodão
75 x 53 cm
2015

2
Lorem ipsum dolor sit amet
Ipsum dolor sit

3
Lorem ipsum dolor sit amet
Ipsum dolor sit

4
Cambará do sul 1, RS
pintura iridiscente sobre
fotografia, impressão em jato
de tinta semipigmentada
sobre papel 100% algodão
180 x 130 cm
2016

5
Jaboticaba, ES
pintura em acrílica sobre
composição fotográfica,
impressão em jato de
tinta semipigmentada
sobre papel 100% algodão
78 x 42 cm
2015

Arquivo Tupi, Urna 1
urna em imbuia maciça,
com sete gavetas secretas
contendo documentos fotográficos
28 x 68 x 44 cm, peso 26 kg
2015

Desde cedo a paixão por este gênero vinha associada a um prazer natural, despojado de qualquer artifício que se originasse do intelecto. “Eu era louco pela Renascença. Ficava na Itália, dentro de vários museus – não nos mais famosos, nos mais simples, nos menores – reproduzindo aquelas paisagens.

A relação com a paisagem é metafísica, você pode estar com ela sem ter que falar, discutir ou defender nada. O trabalho do artista é sempre epopéico, fruto de uma travessia de abismos e desfiladeiros. O silêncio e a desaceleração que a paisagem traz aliviam o fardo da exigência crítica”.

Ricardo van Steen vive uma situação antagônica entre a sua formação erudita e a sua formação profissional, aonde tem que lidar com as mídias massivas como a propaganda, o jornalismo, o cinema. Este antagonismo aumenta a exigência crítica em seu trabalho artístico e o leva a uma busca de sutileza e complexidade; e se vale da possibilidade de alterar a realidade por meio da manipulação fotográfica oferecida pelo mundo do digital. “Até que ponto uma imagem deve ser preservada ou não?… imagens sobreviventes são troféus, desfechos de batalhas terríveis”, afirma o artista.

O fascínio pelo trabalho dos artistas que vieram ao Brasil para acompanhar a colonização levou Ricardo à coleta de imagens por cerca de três décadas. Ao encontrar o Arquivo Tupi nos porões da antiga Secretária de Águas, vinculada ao IBAMA, inicia a criação de imagens que remetem à documentação científica e denuncia o atual processo de desaparecimento da água no Brasil. O ponto de partida são fotos, a maioria produzidas por van Steen e algumas encontradas em documentos antigos.

A partir de uma série de operações que subvertem a função do fotográfico, seja como registro, seja como representação do “real”, ele cria polaridades entre revelação e desaparição do referente, altera as cores para marcar a passagem do tempo, chegando, por vezes, ao quase apagamento das imagens, às quais aplica digitalmente camadas de história, pintando sobre as mesmas com aquarela ou tinta acrílica e aí obtém um objeto único.

Ao escrever o seu célebre ensaio “A obra de arte na época da sua reprodutibilidade técnica”, Walter Benjamin assinalava que a fotografia, ao multiplicar os seus exemplares, substitui o objeto único pelo objeto em série e atualiza o objeto reproduzido, por permitir que a reprodução alcance o receptor aonde quer que ele esteja. E afirmava que isto confere ao meio f otográfico a possibilidade de romper com a tradição, quebrando a aura da herança cultural. Mas van Steen agora retoma esta aura quebrada em meados do século XX. Muitas vezes o artista reproduz e sobrepoe às paisagens captadas fotograficamente uma camada pictórica de folhagem pintada por Eckhout, ou um velho envelope encontrado no ateliê. E para validar, atestar e conferir crédito a todo este processo, ele sobrepoe mais uma camada, um carimbo, para configurar simbolicamente o lacre, o crédito final da imagem; ao retomar a ideia de objeto único, descarta o fim da aura e poe a atualidade em xeque. A partir da ação que conjuga a incidência do digital na fotografia com a imagem artesanal da pintura, Ricardo van Steen faz um percurso de retorno na história das i magens, uma volta de 360 graus em relação ao legado de Benjamin, para romper com a ideia da reprodutibilidade em relação ao receptor e lhe oferecer um único original. Esta é uma mensagem que, afinal, pode ser traduzida como um desejo, uma emergência mesmo de refletir sobre o nosso tempo.

Quando os artistas deslocam a cronologia, que desejos transpiram, senão os de r estabelecer uma ordem que sempre esteve deslocada e que de certa forma nos escapa? É justamente este ir e vir pelos séculos e a criação da confluência – do olhar contemporâneo com os olhares do nosso passado via artistas viajantes – configurada por estas obras artísticas, que nos provoca. Por meio destas representações, somos confrontados com questões que se estendem no tempo por séculos e com o nosso eterno paradoxo, a tragédia e a delícia de sermos como somos e de viver por aqui.

Detalhe gavetas do Arquivo Tupi, Urna 1